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out 24 2014

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Manuela Carneiro da Cunha, organizadora de “História dos Índios no Brasil”, concede entrevista para o site Índios no Nordeste

Professora Manuela Carneiro da Cunha   (Foto: www.abc.org.br)

Por Edmundo Monte

Professora, pesquisadora, autora e organizadora de um amplo e variado repertório de publicações, entre elas o clássico livro HISTÓRIA DOS ÍNDIOS NO BRASIL, Manuela Carneiro da Cunha demonstra que o seu DNA é marcado de pioneirismo, além de transitar por diversas fronteiras. Fomos contemplados pela genética da pesquisadora, que, generosamente, nos concedeu a primeira entrevista exclusiva do site “Índios no Nordeste”. Agradecemos e nos sentimos honrados em compartilhá-la com os nossos leitores e demais visitantes deste espaço virtual, afinal – com todo respeito, admiração e referência aos seus estudos – Manuela Carneiro da Cunha vedou a lacuna em questão e, assim esperamos, amplia a visibilidade e o credenciamento do site, possibilitando, quem sabe, entrevistarmos outras pessoas ligadas à causa indígena. 

Nossa breve conversa aconteceu logo após uma mesa-redonda, durante as atividades da 66ª Reunião da SBPC, ocorrida entre os dias 22 e 27 de julho, em Rio Branco/AC, no campus da UFAC. Simpática e solícita com todos/as, a pesquisadora nos revelou seus (bons) planos no que diz respeito – como diria o professor John Monteiro – à Nova História Indígena no Brasil.

EDMUNDO MONTE: Passados 22 anos do lançamento da 1ª edição, “História dos Índios no Brasil” continua exercendo a função de obra referencial para estudantes e pesquisadores da História Indígena, sobretudo os indivíduos da nova e frutífera geração. De que forma você lida com tudo isso? Ainda se emociona e/ou se surpreende com o alcance do seu trabalho e o reconhecimento dos novos e antigos pesquisadores?

MANUELA CARNEIRO DA CUNHA: Olha Edmundo, eu fico muito feliz. E surpresa também! Eu quero aproveitar este momento para dizer justamente que estou contando com essa nova geração de historiadores. Porque eu acho que está na hora de fazermos uma nova edição do livro. Como você mesmo mencionou, o próprio John Monteiro e tantos outros da minha geração estimularam muito esses estudos. Portanto, eu realmente penso que chegou a hora de fazer uma síntese do que, agora, encontra-se disponível. Ou seja, aquilo que há 20 anos atrás ainda não conhecíamos.

E.M.: Todo início de ano alguns colegas e amigos professores costumam falar sobre aposentadoria ou que a saúde não mais os permitem viajar para participar de congressos etc. Em quase 100% das vezes, acontece justamente o contrário: atividade total até as merecidas férias em dezembro. Como eu acompanho o seu trabalho, seja através de entrevistas concedidas, de textos publicados ou presencialmente, como no caso dessa mesa-redonda, afirmo com propriedade que sua vida profissional é, digamos, “divertida”. (risos). Manuela, com tantos compromissos e agendas a cumprir, sobra tempo para acompanhar de perto a crescente produção acadêmica e, em particular, os estudos e pesquisas sobre a temática indígena nos campos das Ciências Humanas e Sociais?

M.C.C.: Bem, você sabe que eu passei quinze anos ministrando aulas na Universidade de Chicago. Mas, apesar da distância geográfica, durante esse período de atividades no exterior, todo ano eu conseguia passar seis meses aqui no Brasil. Só que eu embarquei também em outros estudos, abordando outras temáticas. Portanto, eu acho que não tenho noção do que vem sendo produzido sobre a História Indígena. E, volto a enfatizar que, justamente agora, o meu desejo é realizar uma viagem de volta aos saudosos horizontes, para tentar entender tudo o que surgiu de novo sobre os povos indígenas em todo o Brasil. Estou muito curiosa, e se você puder me ajudar, serei grata!

E.M.: Eu? (pausa) Posso tentar… Agradeço a gentileza. Sugerir e indicar alguns estudos recentes sobre a História Indígena no Brasil para você é uma responsabilidade e tanto, não? (risos) Bem, antes de iniciarmos a entrevista eu comentei sobre o nosso site. Acredito que temos um bom acervo de dissertações e teses sobre os índios no Nordeste disponíveis para download gratuito (e pelas vias legais) reunidas em um único endereço digital. Seria muito bacana tê-la como a mais nova “estudante” em nossa biblioteca virtual! (risos gerais)

E.M.: Professora Manuela, como você lida com o “assédio intelectual” da nova geração de historiadores. Recebe muitos e-mails ou outras formas de contato dos “orientandos platônicos”? 

M.C.C.: Edmundo, o “orientandos platônicos” foi boa! (risos). Não, eu acho que não recebo tantos contatos assim, mas fico feliz quando isso acontece.

E.M.: Até hoje muita gente acessa uma entrevista sua concedida à Folha de São Paulo, e que republicamos em nosso site. Enfim, chegou a nossa hora. Aproveitando a oportunidade, mesmo de longe, você tem acompanhado as discussões e demandas recentes sobre os índios no Nordeste?

M.C.C.: Sim, sim. E aqui eu aproveito para enfatizar algo que você mesmo evidenciou no início da nossa conversa: a questão da historiografia. Ela é parte disso. Recuperar a história se configura uma importante ferramenta para o debate político, no sentido de assegurar os direitos dos povos indígenas.

E.M.: O último Censo do IBGE apontou um crescimento considerável da população indígena no Nordeste. Conversando sobre isso com alguns colegas demógrafos, convergimos em vários aspectos.

M.C.C.: Eu acho que tem várias coisas a serem consideradas. As pessoas estão reconhecendo suas identidades, inclusive aquelas que habitam as cidades. Outrora tínhamos os índios urbanos que escondiam a sua identidade, porque, de fato, eram discriminados. E agora eu acho que está sendo muito mais motivo de orgulho. Nesse sentido, eu volto a enfatizar os valores dos que se dedicam à História, pois, reconhecer a própria história é cuidar das suas raízes. Então, isso é parte desse crescimento.

E.M.: Professora, o pessoal ali tá querendo falar com você. Obrigado pela conversa. Finalizando, por curiosidade, esperava encontrar esse frio hoje em Rio Branco? A famosa friagem?

M.C.C.: Claro! Eu trabalhei no Acre para publicarmos a Enciclopédia da Floresta. Realizamos nossa pesquisa no Juruá.

E.M.: O que espera do Governo Federal em relação ao cumprimento legal das demandas dos povos indígenas no Brasil? O negócio, pra variar, anda lento e turbulento…

M.C.C.: Eu espero que aconteça algo de positivo nos próximos anos. Concordo plenamente que está havendo uma paralisação muito grande na questão da demarcação das terras indígenas. Vamos ver o que o futuro nos reserva.

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Para citações bibliográficas e/ou reprodução em outros sites, blogs e afins, favor seguir o modelo abaixo:

MONTE, Edmundo. Manuela Carneiro da Cunha, organizadora de “História dos Índios no Brasil”, concede entrevista para o site Índios no Nordeste. 2014. In: MONTE, Edmundo; SILVA, Edson. Índios no Nordeste: informações sobre os povos indígenas. <http://www.indiosnonordeste.com.br>. [Acesso em: dia/mês/ano]

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