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ago 01 2014

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Na floresta, no campo ou na cidade? Lugares indígenas

Por Edmundo Monte

Início de noite.

Horário propício para curtir um queijo de manteiga com pão francês, acompanhado de um cafezinho.

Quer dizer, quase isso.

Estava no Agreste nordestino, em pleno trabalho de campo numa terra indígena.

Na zona rural, “café é boia”.

No caso específico, digo com propriedade que chafé é boia.

Os costumes herdados desde épocas coloniais, onde o café se constituía bebida de patrão e fazendeiro, para os indígenas e camponeses locais, ainda hoje, reflexos da privação desta bebida se fazem presentes.

É comum servir o café ralinho, ralinho.

No pernambuquês ou agrestinês chamam de chafé – a bebida quase incolor – que não critico, pois sempre cumpriu o seu papel.

Sempre!

Que me perdoem a cidreira, o boldo e a erva-doce.

Seja como energético natural ou enquanto elemento catalisador de boas conversas, de sociabilidades, chafé é chafé.

Oxe! Me empolguei.

Quem já viu matuto da cidade, em pleno Agreste, na famosa “repi auer”, após o expediente regado a sol no toitiço, poeira semiárida nos pulmões e incontáveis doses de chafé, negligenciar uma loura suada?

Ave Nossa Sra. das Montanhas, Nossa Mãe Tamain, teu filho também tem esse  direito, né? Pense num boteco fuleiro, onde o queijo de manteiga faz inveja a qualquer dono de padaria.

Tive esse privilégio.

Eu e mais uma penca de ilustres cidadãos locais, do pedinte gente boa da igreja Matriz, ao assessor  parlamentar metido a doutor.

Sem esquecer os papudinhos profissionais, com CTPS assinada e tudo mais, a médicos e professores formais e informais.

Celebridades dignas de uma “Atenas do Sertão”.

Menos camarada, menos.

Uma coisa é certa: naquele momento, todos  abdicaram do chafé  e do café preto em nome da loura suada, baratinha que só “peixe em lata de goiabada”.

Valei-me gorduroso queijo de manteiga, só o senhor salva. Da ressaca.

Conversa vai, papo furado vem e, cientes do meu trabalho na região, a velha auspiciosidade agrestina se fez presente:

– Sim, rapaz, me diga com toda sinceridade, já visse  algum índio de verdade por aí?

Antes que eu respondesse, o interlocutor amigo da onça ainda fez a gentileza de calibrar os copos de todos os componentes da mesa.

Convenhamos, o cabra foi um cavalheiro. Um lorde dos Sertões.

O sujeito sabia que tinha me colocado em apuros, mas esperou eu molhar a goela.

Dei um sorriso estratégico e repliquei:

– Olha, não só vi índios, como tomei mais de um litro de chafé na casa deles. Bom que só a gota serena!

E, virado num “mói de coentro”, emendei de trivela:

– Pelo que entendi – após umas goladas de cerveja – da sua pergunta, no sentido de “ver o índio” no estilo Globo Repórter ou daqueles que andam pelados gritando uh-uh-uh, confesso que não presenciei. Não vim aqui com esse propósito.

Na minha infância, chamavam isso de “resposta na titela”. Daquelas que deixam o cara mudo, estático. Fulo da vida.

A verdade é que naquele momento, pensando friamente, duas situações poderiam ocorrer após tal delicadeza da minha parte:

1) meu mandarem pra PQP (acrescido de umas porradas grátis) ou…

2) respeitar a individualidade de cada um e esfriar a cabeça com mais uma rodada de cerveja e queijo de manteiga.

Para minha sorte (ou sucesso), a maioria marcou a segunda alternativa.

Um olhou para o outro, com as pupilas dilatadas no melhor estilo “vai pra PQP forasteiro”, empunhando seu majestoso copo americano, para o primeiro e único brinde da noite:

– Um salve ao povo da nossa cidade, que tão bem acolhe o pessoal que vem de fora estudar sobre os índios.

Fazer o quê?

Tim-tim com toda força possível, tomando cuidado para não quebrar o copo. Seria abusar da boa vontade, né?

Evidente que o clima naquele momento não era propício para dialogar sobre a questão das identidades indígenas e da sua presença em diversos espaços no Brasil.

Porém, confesso que as palavras de uma liderança indígena local: mulher, mãe e viúva, permearam meus pensamentos, insuflando-os até o tempo presente, quase que – com todo respeito à minha amada genitora – como um conselho de mãe para suas crias:

– Edmundo, ou o cabra é bem estudado, ou é bem viajado.

Em síntese, ela se referia ao aprendizado escolar/acadêmico ou, na ausência dele, as vivências e experiências adquiridas através de processos  migratórios e dos momentos de sociabilidade em outros espaços.

Quem sou eu para discordar da sabedoria e dos conhecimentos tradicionais?

ÍNDIO é ÍNDIO na floresta, no campo ou na cidade.

Important!

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Para citações bibliográficas e/ou reprodução em outros sites, blogs e afins, favor seguir o modelo abaixo:

MONTE, Edmundo. Na floresta, no campo ou na cidade? Lugares indígenas. 2014. In: MONTE, Edmundo; SILVA, Edson. Índios no Nordeste: informações sobre os povos indígenas. <http://www.indiosnonordeste.com.br>. [Acesso em: dia/mês/ano]

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2 comentários

1 menção

  1. katia

    Não sou nem tão estudada, nem não viajada, um pouco de cada, mas essa grande mulher, está me parecendo que é Dona Zenilda. Pessoa de uma envergadura ímpar, guerreira como poucas e apesar de tudo de uma humildade e generosidade comoventes !

    1. Edmundo Monte

      Obrigado pelo comentário, Kátia!
      Concordo com seus argumentos.
      Como é bom ouvir e aprender com os povos indígenas.

      Abraço e continue visitando o site,
      Edmundo Monte

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