Foto: Luiz Pires/CGY

Por Edmundo Monte

As discussões ocorridas no final do século XIX e que influenciaram nas primeiras décadas do século XX, ideias, imagens e (pre)conceitos sobre a miscigenação do povo brasileiro, continuam, literalmente, fazendo escola em pleno ano de 2014. Coincidentemente, diga-se de passagem, às vésperas de um pleito eleitoral.

Nos referimos à coreografia marqueteira produzida para a abertura da Copa do Mundo de Futebol, que apresentou, entre outros elementos questionáveis, uma espécie de pedido de “paz e amor”, com direito a soltura de pombas brancas, libertadas aos céus por três crianças. A estratégia era enfatizar (de novo?!) as raças branca, negra e indígena brasileiras, negligenciando a atual diversidade étnica presente e atuante no país.

Diferente do que imagina uma parcela considerável da população nacional, os povos indígenas participaram ativamente na condição de sujeitos, em todos os momentos da História do Brasil. Mais uma vez, no seio da festividade “made in FIFA”, se fizeram presentes, seguindo os próprios preceitos e necessidades. Porém, em decorrência da demanda esteriotipada e capitalista do evento em questão, no sentido de atender os interesses políticos e socioeconômicos das entidades oficiais envolvidas, entre elas o Governo Federal, o jovem índio Guarani – e toda uma diversidade de povos indígenas – foram censurados nas imagens divulgadas ao vivo para dezenas de países.

Saiba mais no artigo da revista Carta Capital que reproduzimos abaixo:

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Indígena estende faixa por demarcação na abertura da Copa

Imagem foi ignorada pela transmissão de tevê. Ação foi pensada há cerca de um mês, quando guaranis foram convidados à abertura

Por Piero Locatelli, em 13/06/2014

Uma criança branca, uma negra e um índio com um cocar entraram juntos na abertura da Copa do Mundo nesta quinta-feira 12. As imagens da televisão mostraram as crianças soltando uma pomba branca minutos antes do início da partida entre Brasil e Croácia. As emissoras omitiram, porém, a imagem do indígena abrindo logo em seguida uma faixa onde estava escrito “demarcação”.

A faixa do jovem de 13 anos lembrava a demora do governo federal para demarcar novas terras indígenas no Brasil. O garoto vive na aldeia Krukutu, na região de Parelheiros, no extremo sul da cidade de São Paulo. No local, os índios moram em situação precária enquanto aguardam a assinatura da demarcação pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, para que possam ter acesso a uma terra maior. Em uma terra maior, dizem os índios, poderiam retomar seu modo de vida tradicional.

O ato foi pensado há cerca de um mês, quando os organizadores da Copa buscaram os guaranis da cidade para convidá-los a fazer parte da abertura. O convite chegou em meio a uma campanha realizada em todo o Brasil pela demarcação de terras, e os indígenas resolveram aproveitar a oportunidade para mostrarem sua reivindicação.

“Naquele momento, aceitamos o convite e começamos a pensar em fazer alguma coisa na abertura. Nós organizamos que alguém iria entrar com uma faixa escondida, aí falamos para ele: ‘abre a faixa lá e seja o que Deus quiser’ ”, diz Fabio Jekupé, liderança da aldeia indígena.

Fábio conta não ter ficado surpreso com a omissão do ato na televisão. “Eles não querem mostrar isso, querem mostrar só a paz entre os povos para dizer que está tudo bem e está tudo legal, mas a situação aqui não é essa” diz, referindo-se a entrada das três crianças juntas passando uma ideia de paz.

Em meio a uma campanha pela demarcação de terras em todo país, os guaranis dizem que não são contra a Copa. Segundo David Karai, morador da aldeia do Jaraguá em São Paulo, os indígenas não participaram dos atos contra o mundial, mas dizem que o evento foi uma oportunidade para mostrar ao mundo a situação em que vivem. “Os guaranis estão vendo a copa, todos os jogos. Por isso mesmo nós temos que ir pra rua e mostrar que nós estamos vivos, para nós sermos lembrados”.

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1 Comentário em “Os povos indígenas sob a ótica do “padrão FIFA”

  1. Mais uma vez o impacto de um megaevento no país objetiva encobrir a situaçao real que se passa os povos que estão na luta e que sempre lutaram; encobrir para que esteja sob a ótica internacional uma situaçao onde “tudo vai bem no país da copa” e de que “a copa no país trouxe benefícios”

Comentários encerrados.