Em uma área conhecida como Unacau, no sul da Bahia, recém retomada pelo povo Tupinambá da Serra do Padeiro, aconteceu entre os dias 25 e 28 deste mês o VI Seminário Cultural da Juventude Indígena do Regional Leste, sob o tema: “Jovens indígenas nas lutas de seus povos construindo o Bem Viver”.

O seminário contou com a participação de jovens e lideranças indígenas dos povos da Bahia: Atikum de Rodelas, Atikum Nova Vida, Camakan, Fulni-ô, Kaimbé, Kapinawá, Kiriri de Mirandela, Kiriri de Muquém, Pankararu, Pankaru, Pataxó do Extremo Sul, Pataxó Hã-Hã-Hãe, Potiguara, Tapuia, Truká, Truká Tupam, Tumbalalá, Tupinambá da Serra do Padeiro, Tupinambá de Olivença, Tuxá de Banzaê, Tuxá de Rodelas, Xakriabá de Cocos. Participaram também os Guarani e Tupiniquim do estado do Espírito Santo e os Xakriabá de Minas Gerais. Indígenas Kayapó/Marajoeiro, do Pará, e Pankararu de Pernambuco.

Também participaram representantes de comunidades quilombolas e pescadores artesanais, trabalhadores e trabalhadoras rurais sem terra; representantes de movimentos sociais; entidades aliadas; parceiros; professores e estudantes universitários, além de vários representantes das secretarias do governo do estado da Bahia, totalizando cerca de 750 pessoas.

A Unacau foi retomada pelos Tupinambá em maio de 2012. Este conjunto de fazendas, que soma 2.064 hectares – em que se produzia cacau e, posteriormente, café e palmito –, foi durante anos símbolo de “desenvolvimento” com investimentos de recursos públicos. Mas o que ninguém divulgava é que se usavam mecanismos de expropriação fundiária, como grilagens de terras e ameaças de morte para garantir da dominação latifundiária do território.

Nos tempos da Unacau e das empresas que a sucederam, registrou-se a ocorrência de trabalho escravo e também de intensos ataques ao ambiente, notadamente o desmatamento de grandes áreas. O sonho do cacique Babau Tupinambá e de sua comunidade da Serra do apdeiro, e o que foi respaldado e incentivado por todos os participantes do VI Seminário, é transformar este espaço de morte em um espaço de vida, instalando aqui a primeira universidade indígena do Brasil.

O Seminário trabalhou com as dinâmicas de mesas temáticas, oficinas e plenárias. A mesa de abertura contou com a presença do Cacique Babau, de Jéssica Tupinambá, representando a coordenação do evento, e de Haroldo Heleno, representante do Conselho Indigenista Missionário (Cimi).

A segunda mesa contou com a presença de representantes das secretarias do governo baiano, lideranças dos povos presentes e do Grupo Tortura Nunca Mais. Na parte da tarde, três mesas foram formadas e refletiram os temas; mesa 1:  “A luta pela terra e a criminalização dos povos indígenas e comunidades tradicionais”; mesa 2: “Linha do tempo da criminalização de lideranças: do caboclo Marcelino aos dias de hoje”, com exposição de fotografias da Serra do Padeiro feitas por Daniela Alarcon. Por fim, a mesa 3: “Empreendimentos que afetam as comunidades tradicionais”.

No segundo dia do seminário as oficinas temáticas e práticas foram momentos de muita reflexão e definições; delas saíram as propostas e reivindicações das comunidades presentes. Os temas abordados foram: “Criminalização e resistência dos povos indígenas”; “Terras tradicionais e processos demarcatórios”; “Soberania e segurança alimentar”; “Ensino superior indígena”; “Políticas Públicas para a juventude indígena”; “Organização da Juventude indígena – desafios e perspectivas”. Os resultados das oficinas e dos debates estão sintetizados no documento final do seminário.

Destaque para a ampliação da Comissão de Articulação dos Jovens Indígenas do Regional Leste (Cajirle), que passou a se chamar Comissão de Articulação dos Jovens Indígenas dos Regionais Leste e Nordeste (Cajirlene), contando com a presença de representantes de todos os povos indígenas da Bahia, Espírito Santo, do povo Pankararu de Pernambuco e dos Xakriabá de Minas. Outros povos serão contatados para se somarem a esta organização.

Paralelamente ao seminário ocorreu uma plenária sobre a saúde indígena na Bahia, convocada pelo Movimento Unido dos Povos e Organizações Indígenas da Bahia (Mupoiba), diante da situação caótica em que se encontra a saúde indígena no Estado. Ao final da plenária – que contou com a participação de vários caciques e representantes de todos os povos presentes –, um documento reivindicatório foi apresentado e aprovado pela plenária do seminário.

Todo o seminário foi recheado de momentos de mística, de muita alegria e cores – os rituais marcaram o ritmo da caminhada dos povos. O evento foi encerrado com uma “caminhada de compromissos”, durante a qual mudas de cacau foram plantadas em lugares estratégicos da retomada. Duas delas ao lado da grande plenária, significando “Compromissos e Continuidade”; duas em frente ao prédio onde funcionou a coordenação do evento, significando “Organização e Criatividade”; duas no local onde se realizou a oficina “Terras tradicionais e processos demarcatórios”, com o significado de “Luta e Resistência”; e as duas últimas em frente ao refeitório, significando “Fé e Esperança”. Finalmente, um grande Toré fechou o VI Seminário Cultural da Juventude Indígena do Regional Leste.

Fonte: CIMI