“Ao lutar pela recuperação dos territórios, já nas terras reocupadas/retomadas, os Guarani e Kaiowá demonstram e acionam claramente a sua especificidade e condição de pertencimentos aos territórios de origem”, escreve Tonico Benites, Guarani-Kaiowá, mestre e doutorando em Antropologia Social do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). O artigo foi compartilhado pela Associação Brasileira de Antropologia – ABA.

Segundo ele, “os Guarani Kaiowá têm ligação e conexão direta com os territórios específicos, considerando-se a si e aos territórios como uma só família, dado que o território específico é visto por esses indígenas como humano”.

Assim, “o processo de luta antiga pela reocupação e recuperação dos territórios tradicionais é uma ação exclusivamente indígena interconectada aos seres do cosmo Guarani Kaiowá, ou seja, trata-se de uma concepção etnicamente diferenciada, eles sentem profundamente a importância de retornar ao território específico”.

Eis o artigo.

A pretensão deste artigo é fazer uma breve análise das motivações principais que levaram historicamente e ainda levam hoje os Guarani Kaiowá a retornarem aos territórios tradicionais, tekoha guasu, de onde foram expulsos e dispersos. Além disso, pretende-se ressaltar os significados vitais dos territórios específicos reivindicados para os povos Guarani Kaiowá. Esses territórios tradicionais estão localizados nas margens das bacias dos rios situados no cone sul do estado do Mato Grosso do Sul.

Como é sabido, no início da segunda metade do século XX, intensificou-se o processo de colonização oficial do sul do atual estado do Mato Grosso do Sul, e inúmeras comunidades Guarani Kaiowá foram expropriadas e expulsas de seus territórios antigos, sendo, na maioria dos casos, transferidas e confinadas nas Reservas Indígenas e/ou Postos Indígenas do Serviço de Proteção dos Índios (SPI). Diante desse quadro, iniciativas de articulação e luta de várias lideranças Guarani e Kaiowá para retornar aos antigos territórios começaram a despontar no final da década de 1970.

Os grandes rituais religiosos – jeroky guasu – foram fundamentais para os líderes políticos e religiosos se envolverem nos processos de reocupação e recuperação dos territórios tradicionais específicos. A atuação, ação e valorização dos saberes Guarani Kaiowá, rituais religiosos e a intermediação dos líderes religiosos nos processos de reocupação e recuperação de parte dos territórios tradicionais foram e são muito importantes para este povo. Nesse sentido, é importante explicitar que as manifestações rituais e religiosas observadas em situações de reocupação de territórios tradicionais expressam uma ação e concepção indígena bem específica e inteiramente desconhecida dos não indígenas, gerando diferentes reações e posições entre as diversas autoridades envolvidas em conflitos fundiários, tais como, fazendeiros e instituições do Estado brasileiro, e Justiça.

É relevante considerar que os Guarani Kaiowá sentem-se originários dos espaços territoriais reivindicados, e que, nos últimos 30 anos, tendo sido privados da possibilidade de se reassentarem nos seus territórios tradicionais e sobreviver conforme seus usos, costumes e crenças, passaram a investir reiteradamente nas táticas de recuperação deles.

Em relação ao significado vital do território para o povo Guarani Kaiowá é preciso observar em detalhe o modo específico de relacionamento desses indígenas com os seres invisíveis/guardiões (protetores/deuses) da terra, manifestados através de cantos e rituais diversos dos líderes espirituais. O respeito a esses seres humanos invisíveis e a forma de diálogo com eles marca uma diferença muito importante em relação à percepção e ao uso dos recursos naturais da terra. Este é um aspecto fundamental e determinante do relacionamento dos Guarani Kaiowá com os territórios antigos. Ao lutar pela recuperação dos territórios, já nas terras reocupadas/retomadas, os Guarani Kaiowá demonstram e acionam claramente a sua especificidade e condição de pertencimentos aos territórios de origem.

Importa observar que os Guarani Kaiowá têm ligação e conexão direta com os territórios específicos, considerando-se a si e aos territórios como uma só família, dado que o território específico é visto por esses indígenas como humano Os Guarani Kaiowá possuem um forte sentimento religioso de pertencimento ao território específico, fundamentado em termos cosmológicos, sob a compreensão religiosa de que os Guarani Kaiowá foram destinados, em sua origem como humanidade, a viver, usufruir e a cuidar deste território específico, de modo recíproco e mútuo, portanto eles podem até morrer para salvar a terra. Há um compromisso irrenunciável entre os Guarani Kaiowá e o guardião/protetor da terra, há pacto de diálogo e apoio recíproco e mútuo: os Guarani Kaiowá protegem e gerenciam os recursos da terra, por sua vez, o guardião da terra vigia e nutre os Guarani Kaiowá.

A compreensão dos espaços territoriais pelos Guarani Kaiowá tem uma concepção cosmológica específica, sui generis, e uma fundamentação cosmológica e histórica que se enraíza em tempos passados. Assim, o processo de luta antiga pela reocupação e recuperação dos territórios tradicionais é uma ação exclusivamente indígena interconectada aos seres do cosmo Guarani Kaiowá, ou seja, trata-se de uma concepção etnicamente diferenciada, eles sentem profundamente a importância de retornar ao território específico.

Dessa forma, a luta de recuperação das antigas áreas ocupadas pelos Guarani Kaiowá é realizada por meio de retorno ao território, caracterizado como um movimento pacífico e político-religioso exclusivo. Isto é, trata-se de uma articulação política, comunitária e intercomunitária de lideranças religiosas Guarani Kaiowá.

Nesse contexto, destaca-se o papel da Aty Guasu, uma assembleia geral realizada entre as lideranças políticas e religiosas dos Guarani Kaiowá a partir do final de 1970. Decisões vitais que afetam a todos, como decisões sobre a recuperação de parte dos territórios antigos, por exemplo, são discutidas religiosamente e acatadas. A Aty Guasu é definida como o único foro legítimo de discussão religiosa e de decisão articulada das lideranças políticas e religiosas dos Guarani e Kaiowá.

Por fim, o que se deve ressaltar, como conclusão parcial do que foi exposto, é a importância da continuidade histórica da luta político-religiosa das lideranças Guarani Kaiowá.

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos

1 Comentário em “Os motivos da luta dos Guarani e Kaiowá pelos territórios tradicionais, tekoha guasu

  1. A cada dia que passa e que não deixamos viver em nós os nossos povos indígenas em nós mesmos estamos ajudando e contribuindo para matar nós e também ela(es) (nossos povos indígenas e porque não negros e por aí vai. E como diz Eduardo Galeano na luta entre o bem e o mal o povo é quem paga a conta. Vamos cantar Caetano Veloso então? Qual povo mesmo?

    Enquanto os homens exercem
    Seus podres poderes (e nós contribuindo muito com elas(es))
    Motos e fuscas avançam
    Os sinais vermelhos
    E perdem os verdes
    Somos uns boçais…

    Queria querer gritar
    Setecentas mil vezes
    Como são lindos
    Como são lindos (as)os burgueses
    E os japoneses
    Mas tudo é muito mais…

    Será que nunca faremos
    Senão confirmar
    A incompetência
    Da América católica
    Que sempre precisará
    De ridículos tiranos
    Será, será, que será?
    Que será, que será?
    Será que esta
    Minha estúpida retórica
    Terá que soar
    Terá que se ouvir
    Por mais zil anos…

    Enquanto os homens exercem
    Seus podres poderes (e nós contribuindo muito com elas(es))
    Índios e padres e bichas
    Negros e mulheres
    E adolescentes
    Fazem o carnaval…

    Queria querer cantar
    Afinado com eles
    Silenciar em respeito
    Ao seu transe num êxtase
    Ser indecente
    Mas tudo é muito mau…

    Ou então cada paisano
    E cada capataz
    Com sua burrice fará
    Jorrar sangue demais
    Nos pantanais, nas cidades
    Caatingas e nos gerais
    Será que apenas
    Os hermetismos pascoais
    E os tons, os mil tons
    Seus sons e seus dons geniais
    Nos salvam, nos salvarão
    Dessas trevas e nada mais…

    Enquanto os homens exercem
    Seus podres poderes (e nós contribuindo muito com elas(es))
    Morrer e matar de fome
    De raiva e de sede
    São tantas vezes
    Gestos naturais…

    Eu quero aproximar
    O meu cantar vagabundo
    Daqueles que velam
    Pela alegria do mundo
    Indo e mais fundo
    Tins e bens e tais…

    Será que nunca faremos
    Senão confirmar
    Na incompetência
    Da América católica
    Que sempre precisará
    De ridículos tiranos
    Será, será, que será?
    Que será, que será?
    Será que essa
    Minha estúpida retórica
    Terá que soar
    Terá que se ouvir
    Por mais zil anos…

    Ou então cada paisano
    E cada capataz
    Com sua burrice fará
    Jorrar sangue demais
    Nos pantanais, nas cidades
    Caatingas e nos gerais…

    Será que apenas
    Os hermetismos pascoais
    E os tons, os mil tons
    Seus sons e seus dons geniais
    Nos salvam, nos salvarão
    Dessas trevas e nada mais…

    Enquanto os homens
    Exercem seus podres poderes ( e nós contribuindo muito com elas(es))
    Morrer e matar de fome
    De raiva e de sede
    São tantas vezes
    Gestos naturais
    Eu quero aproximar
    O meu cantar vagabundo
    Daqueles que velam
    Pela alegria do mundo…

    Indo mais fundo
    Tins e bens e tais!
    Indo mais fundo
    Tins e bens e tais!
    Indo mais fundo
    Tins e bens e tais!

    Marleide Quixelô com orgulho sim senhora e senhor!! Deixem-me viver o meu corpo pagão para curar esse meu corpo horrendo e cristão!!

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