Fonte: indiosonline.net

Neste último domingo (19/08/2012), Carlos José (Casé), Cony (índia do povo Nasa – Colômbia), Vilma (índia do povo Nasa – Colômbia), Nicolau Tupinambá, Katu Tupinambá, todos indígenas, no Aeroporto de Ilhéus, fomos insultados e nosso direito de transitarmos violado por pessoas que paravam em nossa frente e/ou nos agrediam (apitando ou afrontando), desejando que reagissemos no sentido de justificarem a violência. O nosso direito de andar e despedir de nossa parente que partia para a luta de seu povo na Colômbia, por sermos indígenas, não nos foi permitido. No último dia 16/08 a mesma situação ocorreu com o Edson Kaiapo (Professor do IFBA) ao embarcar neste mesmo aeroporto.

Manifestamos nossa indignação porque em nenhum momento as “autoridades” nos auxiliaram diante das claras agressões que sofríamos. Fomos chamados mesmo para brigar fora do aeroporto por um dos agressores porque olhamos nos olhos deles para perceber a razão de tanto ódio contra nos que somos índios. Nem os seguranças do aeroporto e a polícia nos atenderam. Todos fizeram vistas grossas aos insultos que sofríamos. Fomos fotografados por aquelas pessoas que nos odiavam.
Após a abordagem feita por uma das manifestantes quando estavamos na fila de embarque, porque a mesma dizia que “nos sim eramos índios de verdade”, conversamos explicando que a “luta” deles não é contra o índio e sim junto à “justiça federal”. É interessante notar que os próprios manifestantes que dizem não existir índios em Olivença, contraditoriamente, nos reconheceram como índios e por isto nos agrediram. Lembramos de “Ensaio sobre a Cegueira” de José Saramago ao pensarmos que existe mesmo uma cegueira quando se trata de reconhecer a nossa presença nestas terras. Cegos também eram os seguranças do aeroporto e os policiais que não apareceram para nos auxiliar.

Ponderamos também que: caso os índios de Olivença se reconhecessem como indígenas e não lutassem pela terra não haveria tanto questionamento por aqueles que são cegos por usarem os óculos dos grande proprietários. Percebemos então que muitos daqueles manifestantes são desinformados e/ou manipulados por outras pessoas. Aliás, fomos conhecer as áreas do recente processo de auto-demarcação Tupinambá e afirmamos que as terras retomadas são em grandes fazendas. Corre a história na região de que muitos que estão no aeroporto são trabalhadores dos proprietários e não somente pequenos proprietários. Portanto, pessoas manobradas e/ou pressionadas por interesses dos que desejam defamar os indígenas. Lembramos então de uma poesia de domínio popular dos violeiros nordestinos:

“A defesa é natural.
Cada qual para o que nasce.
Cada qual com sua classe, seus estilos de agradar.
Um nasce para trabalhar;
outro nasce para briga;
outro vive de intriga e outro de negociar;
outro vive de enganar.
O mundo só presta assim?
É um bom e outro ruim?
E não tenho jeito para dar?
Para acabar de completar;
quem tem o mel, dá o mel;
quem tem o fel, dá o fel;
quem nada tem, nada dá.” 

É comum ouvir da boca daqueles que só tem o fel a seguinte frase, por vezes reproduzida pelas línguas daqueles que nada tem: “para que os índios de Olivença querem tanta terra se não gostam de trabalhar. Em Olivença nem índio tem”. Quantas vezes será preciso lembrar e dizer que os índios estavam aqui antes das invasões iniciadas no século XVI. Os povos indígenas são os povos tradicionais e originários destas terras. A forma como se relacionam com a terra e a natureza não é a mesma da produção agrícola capitalista de enriquecimento de alguns e exploração do trabalho dos outros. Ser índio é se auto-reconhecer e a comunidade indígena identificá-lo como de seu povo. Voltamos a salientar para os que dizem não existir índios em Olivença: porque então fomos reconhecidos como índios e agredidos no aeroporto de Ilhéus?

É necessário que a justiça federal julgue o mais rápido possível o processo de demarcação territorial na região. A demora no julgamento só faz aumentar o clima de tensão. Desejamos também o fim do processo histórico de criminalização que sofre a comunidade Tupinambá de Olivença. Processo este iniciado com as invasões portuguesas, o massacre no Rio Cururupe (século XVI) e as perseguições ao Índio Caboclo Marcelino e sua gente (décadas de 20-40 do século XX), as recentes prisões de Caciques/Lideranças/Comunidade, as difamações veiculadas através de alguns meios de (des)informação e agora também as perseguições no aeroporto de Ilhéus.

Por isto que, após as fotos tiradas sem autorização e as agressões que sofremos, nos sentimos intranquilos quanto a possibilidade de novos ataques ocorrerem. Em outras palavras: ser indío em Ilhéus e nesta região é também correr o perigo de ser agredido, portanto, ter impossibilitado o direito de circular livremente, não podendo contar com o auxílio das autoridades. Os índios não são criminosos. Lutamos pelas terras tradicionais. Porém, no aeroporto de Ilhéus somos tratados como bandidos e provocados sem qualquer intervenção das autoridades. Até pensamos que em terra de Jorge Amado os índios são odiados. Depois, voltando para Olivença, andando pelas retomadas e conversando com os parentes, repensamos: em terra de Jorge Amado existem outras formas de ser amado porque nos índios amamos a natureza (mãe terra, mata, lua, rios, mar, os bichos) e ela nos ama.

“Oh!
Devolvam nossas terras;
nossas terras nos pertencem.
Nelas mataram e ensanguentaram
nossos parentes”
(Canção Tupinambá de Olivença)

Por isto convidamos a todas e todos que apoiam a luta do Povo Tupinambá de Olivença a participarem do IV Seminário de História Indígena: Índio Caboclo Marcelino: 27, 28, 29 e 30 de Setembro – em Olivença (Ilhéus/Bahia). As informações sobre a programação e inscrição poderão ser acessadas através do endereço: http://seminariocaboclomarcelino.blogspot.com.br/

Comissão Organizadora do IV Seminário de História Indígena: Índio Caboclo Marcelino: 27, 28, 29 e 30 de Setembro em Olivença

2 Comentários em “Índios são perseguidos no aeroporto de Ilhéus/BA

  1. Fico indignado com o fato da violência continuar contra nossos povos, após 512 anos de massacre, mas nos tempos que consideramos “tempos de direitos”.
    A intolerância e o ódio contra os povos indígenas não pode continuar. Chega de etnocídio!

  2. O etnocídio é parte constitutiva disso tudo que está aí!!

    Nos é negado a nossa cidadania imaginem a nossa indianidade!! Só e somente só com algumas homossexuais, feministas, anarquista e outristas que consegui viver a minha estética indígena tranquilamente. Vai propor isso dentro da uni-versidade para ver onde vamos parar!! Em eventos indígenas só faltam celebrar uma missa no final. Muitos marxistas e outros istas são tão colonizadores quanto todos que estão por aí!! Vão me dizer que Marx não é uma epistemicida e não considerou as formas de pensar de milhares de povos indígenas? Assim como Freud e uns montes que estão por aí. Ui podem voar as pedras já estamos acostumados com tudo isso!!

    Abraços e a luta continua!!

    Marleide Quixelô

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